Montanhas da América do Sul concentram diversidade de sapos, mas proteção ainda é insuficiente

Montanhas da América do Sul concentram diversidade de sapos, mas proteção ainda é insuficiente

 Nas florestas montanhosas da América do Sul, existem espécies de sapos, rãs e pererecas que vivem em áreas geográficas extremamente pequenas e as causas dessa distribuição não acontecem por acaso. A baixa capacidade de dispersão desses animais, sua dependência de ambientes úmidos e o isolamento provocado pelo relevo ajudam a explicar por que tantas espécies permanecem confinadas a pequenas porções do território, isso quando não são influenciadas por fatores antrópicos. 

  Ao longo de milhares ou milhões de anos, montanhas também podem separar populações de uma mesma espécie. Isoladas, elas seguem trajetórias evolutivas diferentes e podem, com o tempo, dar origem a novas espécies, sendo esse, um dos processos que ajudam a transformar as florestas montanhosas em importantes centros de diversidade de anfíbios.

Pristimantis chinguelas Foto: Germán Chávez / Instituto Peruano de Herpetologia

Pristimantis chinguelas
Foto: Germán Chávez / Instituto Peruano de Herpetologia

  Um novo estudo publicado na revista científica Biodiversity and Conservation dimensionou esse fenômeno entre os anfíbios da América do Sul. A pesquisa identificou 1.555 espécies de anuros microendêmicos — grupo que reúne sapos, rãs e pererecas com áreas de distribuição geográfica muito pequenas. Outro dado da pesquisa chama atenção: 38,39% das espécies não ocorrem em nenhuma área protegida.

 O levantamento foi conduzido pelo pesquisador e doutor em Zoologia Tiago Vasconcelos, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em entrevista à Florestal Brasil, Vasconcelos explicou os principais resultados do estudo, que identificou que cerca de 89% das espécies possuem distribuição inferior a 5 mil km² e metade delas ocupa menos de 300 km². 

  Para entender por que isso importa, primeiro é preciso olhar para uma palavra pouco conhecida fora da ciência: microendemismo.

O que é um anuro microendêmico?

  Anuros são os anfíbios que conhecemos popularmente como sapos, rãs e pererecas, já uma espécie microendêmica é aquela cuja ocorrência está restrita a uma área geográfica muito pequena. Não existe um limite universal que determine quando uma espécie deve ser chamada de microendêmica, no estudo, o pesquisador adotou como critério uma distribuição de até 10 mil km², mas uma distribuição pequena pode ter origens diferentes.

  Para imaginar essa escala, pense em uma área que pudesse ser atravessada de carro de um extremo ao outro em cerca de 20 minutos, considerando aproximadamente 17 quilômetros em linha reta, para algumas dessas espécies, é dentro de uma dimensão territorial dessa ordem, ou ainda menor, que está concentrada toda a sua distribuição conhecida. 

  Segundo Vasconcelos, fatores evolutivos e ecológicos podem restringir uma espécie a determinada região. Ela pode depender de condições ambientais muito específicas ou encontrar barreiras geográficas, como cadeias de montanhas, que dificultam sua dispersão. A ação humana também pode encolher essa área, quando a transformação de ambientes naturais deixa os animais restritos a fragmentos do habitat original. 

 

Perereca-macaco (Phyllomedusa rohdei), encontrada no Sudeste brasileiro

Renato Augusto Martins / Wikimedia Commons

Montanhas podem funcionar como “ilhas”

  Quando o pesquisador mapeou as espécies microendêmicas, um padrão apareceu com clareza: as maiores concentrações estão nos Andes tropicais da Colômbia, Equador e Peru. Em menor proporção, outro núcleo aparece no sudeste da costa atlântica brasileira. Em algumas áreas analisadas pelo estudo, a concentração chegou a 55 espécies microendêmicas.

  Os modelos utilizados na pesquisa apontaram a topografia e a presença de florestas perenes entre os principais fatores relacionados à riqueza dessas espécies.

  Para os anfíbios, florestas tropicais úmidas oferecem uma enorme variedade de pequenos ambientes para viver e se reproduzir. Algumas espécies depositam ovos na água acumulada em árvores; outras utilizam pequenas reservas formadas na base das folhas de bromélias. Há ainda espécies que sequer passam por uma fase de girino e dependem da umidade do chão da floresta para o desenvolvimento dos ovos. Mas as montanhas acrescentam outro elemento: elas separam populações.

  Imagine uma população ancestral de anfíbios vivendo em uma floresta, ao longo de milhares ou milhões de anos, barreiras geográficas podem dividir essa população, os grupos isolados passam a se reproduzir separadamente e, ao longo do tempo evolutivo, acumulam diferenças genéticas. Em determinadas circunstâncias, essas diferenças se tornam grandes o suficiente para que cada população passe a constituir uma espécie diferente. É o que os cientistas chamam de especiação alopátrica.

  Assim, as mesmas montanhas que dificultam a dispersão desses pequenos animais também podem contribuir para a formação de uma diversidade extraordinária de espécies com distribuições extremamente reduzidas.

Há espécies conhecidas de um único lugar

  Os 300 km² que delimitam a distribuição de aproximadamente metade das espécies encontradas no levantamento já chamam atenção, mas, em alguns casos, o conhecimento científico sobre onde determinado anuro vive é ainda mais restrito. Algumas espécies são conhecidas apenas pela chamada localidade-tipo: o lugar onde foi encontrado o espécime utilizado pelos cientistas para descrever formalmente aquela espécie.

“Após uma análise minuciosa, o pesquisador pode constatar que se trata de uma espécie nova. Para descrevê-la formalmente, escolhe um organismo, chamado holótipo, e o local onde ele foi coletado passa a ser chamado de localidade-tipo. Muitos anuros microendêmicos são conhecidos apenas por suas respectivas localidades-tipo, incluindo algumas dezenas de espécies da Mata Atlântica”, explica Vasconcelos.

 

Isso não significa necessariamente que ela não exista alguns quilômetros adiante. Em determinados casos, significa que ainda não sabemos. O próprio estudo chama atenção para limitações no conhecimento disponível, regiões de fácil acesso podem receber muito mais expedições científicas que áreas remotas, produzindo lacunas sobre a verdadeira distribuição de algumas espécies.

  Vasconcelos conta que, na Mata Atlântica, colegas herpetólogos encontram potenciais novas espécies conforme exploram diferentes localidades das serras do Mar e da Mantiqueira, um cenário semelhante provavelmente ocorre nas florestas tropicais dos Andes. Para o pesquisador, essas florestas montanhosas podem ser consideradas “celeiros” de novas espécies de anuros a serem descobertas.

  A descoberta, no entanto, vem acompanhada de uma preocupação: algumas podem estar ameaçadas antes mesmo que conheçamos bem sua distribuição.

Na Mata Atlântica, uma história de milhões de anos

  O Brasil também ocupa uma posição importante nesse mapa. No sudeste da Mata Atlântica, especialmente nas regiões próximas às serras do Mar e da Mantiqueira, a combinação entre relevo montanhoso e floresta úmida cria condições favoráveis para os anuros microendêmicos, mas a biodiversidade atual também carrega marcas de mudanças climáticas ocorridas milhares de anos atrás.

  Vasconcelos explica que partes da região funcionaram como refúgios climáticos durante o último período glacial, há aproximadamente 20 mil anos. Enquanto outras áreas passaram por mudanças ambientais mais intensas, alguns trechos permaneceram relativamente estáveis e permitiram a persistência de espécies.

  Regiões associadas às serras do Mar e da Mantiqueira, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, sul de Minas Gerais e Espírito Santo, são hoje particularmente importantes para essa biodiversidade, e é justamente a dependência de condições ambientais tão particulares que também pode representar um risco.

Quando todo o habitat cabe em uma pequena área

  Uma espécie que ocorre em poucos quilômetros de floresta não está necessariamente ameaçada apenas por ter uma distribuição pequena. Mas quando o ambiente muda, há menos espaço para escapar.

  Entre os 1.555 anuros microendêmicos analisados, 58,13% estão classificados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em alguma categoria de ameaça — vulnerável, em perigo ou criticamente em perigo. Outros 16,84% são classificados como deficientes de dados, o que significa que ainda não há informações suficientes para avaliar adequadamente seu risco de extinção e a perda de habitat é uma das ameaças.

  Quando uma floresta é removida, não desaparecem apenas árvores. Para os anfíbios, também podem desaparecer a sombra, a umidade e os pequenos ambientes onde ocorre a reprodução, nesse sentido, as mudanças climáticas adicionam uma pressão diferente, mesmo quando a floresta ainda resiste.

"Mesmo que florestas sejam mantidas, um ambiente mais quente e seco (proporcionado pelos eventos extremos de estiagem, por exemplo), podem modificar os microambientes de reprodução dos anuros microendêmicos e, consequentemente, as taxas reprodutivas destes organismos podem diminuir", explica.

38% estão fora de áreas protegidas

  O cenário se torna ainda mais preocupante quando o mapa dessas espécies é sobreposto ao das áreas protegidas da América do Sul. O estudo encontrou 38,39% dos anuros microendêmicos sem ocorrência em nenhuma área protegida. No outro extremo, 37,56% têm toda a distribuição considerada pelo estudo dentro dessas áreas.

  Isso cria uma situação peculiar: muitas espécies de distribuição extremamente pequena estão ou inteiramente protegidas ou inteiramente desprotegidas.

  O artigo mostra que grandes unidades de conservação existentes no domínio amazônico abrangem apenas uma fração das maiores concentrações de diversidade microendêmica. Nas áreas onde essa diversidade é mais elevada, as unidades de conservação tendem a ser menores e fragmentadas. Segundo o pesquisador, áreas protegidas nem sempre foram criadas a partir de diagnósticos prévios sobre os locais de maior riqueza de espécies, ao mesmo tempo, existe uma proteção involuntária proporcionada pelo próprio relevo.

  Muitas regiões montanhosas permaneceram menos ocupadas historicamente justamente porque terrenos íngremes e irregulares dificultam a expansão urbana e outras formas de uso humano. Para algumas das espécies que estão fora de unidades de conservação, essas características podem ter ajudado a preservar seus habitats até hoje, mas depender da dificuldade de acesso de uma montanha é muito diferente de contar com proteção legal.

  Os resultados apontam para a necessidade de reconsiderar como as áreas protegidas se sobrepõem à distribuição dessas espécies. E, neste caso, proteger não significa necessariamente criar apenas enormes unidades de conservação. Dependendo do grau de ameaça, podem ser necessárias medidas como criação de corredores ecológicos entre fragmentos de habitat, reintrodução ou translocação de indivíduos e outras estratégias de conservação in situ.

  E há um problema que torna esse planejamento ainda mais complexo: o clima está mudando.

  Uma área adequada para determinada espécie hoje pode deixar de oferecer as mesmas condições nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, lugares onde ela atualmente não ocorre podem se tornar importantes no futuro. O próprio artigo chama atenção para a necessidade de considerar possíveis redistribuições de espécies provocadas pelas mudanças climáticas ao repensar áreas de conservação.

  Para animais capazes de viver em uma única serra, vale ou fragmento de floresta, alguns quilômetros no mapa podem representar a diferença entre permanecer ou desaparecer. E nas montanhas da América do Sul essa preocupação ganha outra dimensão: enquanto pesquisadores ainda encontram espécies que sequer receberam um nome, outras já conhecidas pela ciência vivem em territórios tão pequenos que protegê-las exige, primeiro, saber exatamente onde procurar.

 

O artigo Mountainous rainforests of South America support higher anuran microendemic diversity, but do not protect them properly pode ser acessado em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10531-026-03336-6

Gostou desta reportagem? Acompanhe a Florestal Brasil no Instagram e fique por dentro de novas histórias sobre meio ambiente, biodiversidade, conservação e ciência. Siga @florestalbrasil e ajude a fortalecer a divulgação científica e ambiental.

 

Compartilhar Notícia

Comentários (0)

Você precisa estar cadastrado e logado para poder comentar.

Fazer Login / Cadastrar-se

Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!