Área queimada no Brasil cai 58% em 2025, mas Cerrado concentra 69% do fogo
O Brasil registrou 12,7 milhões de hectares queimados em 2025, uma redução de 58% em comparação com 2024, quando aproximadamente 30 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo.
O resultado ficou 31% abaixo da média histórica anual do país, estimada em 18,4 milhões de hectares, e representa a menor área queimada registrada desde 2018.
Os dados fazem parte da 5ª Coleção do MapBiomas Fogo, elaborada com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o IPAM.
Embora a redução seja significativa, o levantamento mostra que o fogo continua sendo uma das principais ameaças aos ecossistemas brasileiros. Nos últimos 41 anos, mais de 208 milhões de hectares — cerca de 24% do território nacional — queimaram pelo menos uma vez.
Uma área equivalente a mais de duas vezes o território do Mato Grosso já foi atingida pelo fogo desde 1985.
Retorno das chuvas ajudou a reduzir os incêndios
A diminuição da área queimada em 2025 ocorreu após dois anos marcados por secas severas e pelos efeitos do El Niño.
Em 2023 e 2024, a combinação entre temperaturas elevadas, baixa umidade e estiagens prolongadas deixou extensas áreas de vegetação mais vulneráveis aos incêndios.
Com o retorno de chuvas mais regulares em 2025, a umidade da vegetação aumentou e reduziu as condições favoráveis à propagação do fogo.
No entanto, pesquisadores alertam que a recuperação da vegetação também pode provocar o acúmulo de biomassa. Caso esse material seque durante novos períodos de estiagem, poderá funcionar como combustível para grandes incêndios.
Esse cenário exige atenção especial em 2026, principalmente se ocorrerem novas secas combinadas ao uso inadequado do fogo em atividades agropecuárias.

Cerrado concentrou 69% da área queimada
O Cerrado foi novamente o bioma mais afetado pelo fogo no Brasil.
Em 2025, aproximadamente 8,7 milhões de hectares queimaram no bioma, o equivalente a 69% de toda a área atingida no país naquele ano.
Apesar de elevada, a extensão representa uma redução de cerca de 20% em relação a 2024, quando 10,8 milhões de hectares foram queimados.
Do total atingido no Cerrado em 2025, 87% correspondia a vegetação nativa. As formações savânicas responderam por 58% de toda a área queimada no bioma.
O Cerrado ocupa aproximadamente um quarto do território brasileiro, mas historicamente concentra grande parte dos registros de fogo, especialmente em sua porção norte.
Entre 1985 e 2025, cerca de 45% do território do bioma queimou pelo menos uma vez.
Embora o fogo faça parte da dinâmica ecológica de algumas formações do Cerrado, o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios pode impedir a recuperação da vegetação, afetar espécies sensíveis e provocar a degradação dos ecossistemas.
Amazônia teve menor área queimada em 41 anos
A Amazônia registrou 3,1 milhões de hectares queimados em 2025, a menor área da série histórica iniciada em 1985.
O resultado representa uma redução de 80% em comparação com 2024, mas ainda mantém o bioma como o segundo mais afetado pelo fogo no país.
Diferentemente do Cerrado, onde a maior parte das queimadas ocorreu em vegetação nativa, 52% da área atingida na Amazônia correspondia a locais modificados pela ação humana, como pastagens e lavouras.
As pastagens, isoladamente, representaram 35% de toda a área queimada no bioma.
A diferença entre os dois biomas reforça a necessidade de políticas específicas para cada região. O Cerrado possui formações adaptadas a determinados regimes naturais de fogo, enquanto a Floresta Amazônica não evoluiu para conviver com incêndios frequentes.
Por isso, as estratégias de prevenção, manejo e combate precisam considerar as características ecológicas e os tipos de uso da terra presentes em cada bioma.
Pantanal também registrou forte redução
O Pantanal apresentou uma das maiores quedas do país.
Em 2024, cerca de 2 milhões de hectares foram atingidos pelas chamas. Em 2025, a área queimada caiu para 121 mil hectares, o menor valor registrado na série histórica de 41 anos.
Apesar da melhora, o bioma continua sendo extremamente vulnerável às alterações climáticas, às secas prolongadas e aos incêndios de grande extensão.
Considerando todo o período entre 1985 e 2025, o Pantanal foi o bioma proporcionalmente mais afetado: 61% de sua extensão queimou pelo menos uma vez.
Caatinga foi o único bioma acima da média
A Mata Atlântica registrou 216 mil hectares queimados em 2025, uma redução de 77% em relação ao ano anterior.
No Pampa, aproximadamente 10 mil hectares foram afetados. O valor representa um aumento de 115% em relação a 2024, mas ainda ficou abaixo da média histórica anual do bioma, de 16 mil hectares.
A Caatinga foi o único bioma brasileiro que apresentou área queimada acima da média histórica em 2025.
Foram aproximadamente 504 mil hectares atingidos, valor 5% superior à tendência histórica da região.
Cerrado e Amazônia concentram a maior parte do fogo
Ao longo das últimas quatro décadas, Cerrado e Amazônia concentraram 86% de toda a área atingida pelo fogo no Brasil.
Somados, os dois biomas tiveram aproximadamente 179 milhões de hectares diferentes queimados pelo menos uma vez entre 1985 e 2025.
Os anos de 2007 e 2024 apresentaram os maiores registros da série histórica, com 31 milhões e 30 milhões de hectares queimados, respectivamente.
Ambos os períodos foram influenciados por condições climáticas associadas ao El Niño.
Maioria das áreas queimou mais de uma vez

O levantamento mostra que 64% das áreas atingidas pelo fogo nos últimos 41 anos queimaram em mais de uma ocasião.
Em média, áreas com histórico de incêndio voltam a ser atingidas cerca de quatro anos depois.
Na Amazônia, 31% das áreas queimadas sofreram uma nova ocorrência apenas dois anos após o primeiro registro.
Essa reincidência é especialmente prejudicial em ambientes florestais.
Na Amazônia, o intervalo natural entre eventos de fogo pode ser de séculos. Quando incêndios se repetem em poucos anos, a floresta não dispõe de tempo suficiente para se recuperar.
A mortalidade das árvores abre o dossel e permite a entrada de mais luz e calor no interior da floresta. O sub-bosque se torna mais seco e inflamável, aumentando a probabilidade de novos incêndios.
Com o tempo, grandes árvores e espécies mais sensíveis desaparecem, enquanto gramíneas inflamáveis e espécies pioneiras passam a ocupar o ambiente.
A floresta densa pode então ser transformada em uma vegetação mais aberta e degradada, além de deixar de armazenar carbono para se tornar uma fonte de emissões de gases de efeito estufa.
Temporada do fogo se concentra entre agosto e outubro
Entre 1985 e 2025, aproximadamente 72% da área queimada ocorreu entre agosto e outubro, período conhecido como temporada do fogo.
Setembro foi o mês mais crítico, com uma média anual de aproximadamente 6 milhões de hectares queimados.
O período coincide com a estação seca em diversas regiões do país, quando a baixa umidade e a vegetação ressecada favorecem a propagação das chamas.
A combinação entre condições climáticas extremas e atividades humanas aumenta o risco de incêndios que fogem do controle e alcançam áreas naturais.
Vegetação nativa foi a mais atingida

Considerando a soma de todas as ocorrências de fogo registradas entre 1985 e 2025, 71% atingiram áreas de vegetação nativa.
As formações savânicas foram as mais afetadas, representando 34% de toda a extensão queimada no país durante o período.
Entre as áreas modificadas pela ação humana, as pastagens concentraram a maior parcela, correspondendo a 23% dos registros acumulados.
No Pantanal e no Pampa, 96% da área atingida em 2025 estava coberta por vegetação nativa. No Cerrado, esse percentual foi de 87%, enquanto na Caatinga chegou a 82%.
Na Amazônia e na Mata Atlântica, as áreas de uso antrópico representaram, respectivamente, 52% e 54% do total queimado, principalmente em pastagens e áreas agrícolas.
Fogo em campos e savanas também causa degradação

O fato de alguns biomas apresentarem espécies adaptadas ao fogo não significa que incêndios frequentes ou intensos sejam inofensivos.
Cerrado, Caatinga e Pampa evoluíram sob regimes específicos, com determinadas intensidades, épocas e intervalos entre as ocorrências.
Quando o fogo se repete em intervalos curtos, ocorre fora da estação adequada ou atinge temperaturas muito elevadas, pode provocar mortalidade de plantas e animais, empobrecimento do solo e perda de biodiversidade.
Na Amazônia e na Mata Atlântica, o impacto é ainda mais grave, pois o fogo não integra a dinâmica natural predominante dessas florestas.
Após ser atingida, a vegetação torna-se mais seca e vulnerável a novas ocorrências, criando um ciclo de degradação cada vez mais difícil de reverter.
Dados podem orientar a prevenção
O MapBiomas Fogo realiza o mapeamento anual e mensal das áreas queimadas no Brasil por meio de imagens dos satélites Landsat.

A Coleção 5 reúne informações de 1985 a 2025 e utiliza algoritmos de aprendizado profundo para identificar cicatrizes de fogo em pixels de 30 por 30 metros em todo o território nacional.
A plataforma permite consultar dados por bioma, Estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, território quilombola e assentamento.
Também estão disponíveis informações sobre frequência dos incêndios, intervalo de retorno do fogo, severidade, tamanho das cicatrizes e tipo de cobertura da terra atingida.
Esses dados são importantes para identificar as regiões mais vulneráveis, orientar ações preventivas e apoiar a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.
A redução registrada em 2025 representa uma melhora importante em relação ao cenário extremo do ano anterior. No entanto, os 12,7 milhões de hectares queimados e a elevada recorrência observada nas últimas décadas demonstram que o país ainda enfrenta um desafio permanente.
A prevenção precisa considerar as características de cada bioma, combater o uso indiscriminado do fogo e reduzir as condições que permitem que queimadas locais se transformem em grandes incêndios.
Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e MapBiomas Fogo.
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