Canelas-de-ema do Cerrado dependem de beija-flores e abelhas para se reproduzir

Canelas-de-ema do Cerrado dependem de beija-flores e abelhas para se reproduzir

Plantas do gênero Vellozia, conhecidas popularmente como canelas-de-ema, estão adaptadas a alguns dos ambientes mais extremos do Cerrado. Crescem sobre solos pobres, em áreas rochosas de altitude, suportam longos períodos secos e, em algumas espécies, até respondem ao fogo com intensa floração.

Essa resistência, porém, não significa independência ecológica.

Um estudo realizado na Serra do Cipó, em Minas Gerais, mostrou que a reprodução dessas plantas depende fortemente da presença de polinizadores. Os indivíduos que receberam visitas de beija-flores e abelhas apresentaram melhor formação de frutos e sementes e maior capacidade de germinação.

A pesquisa acompanhou 13 espécies durante dois anos e foi publicada na revista científica Annals of Botany.

Plantas com alto nível de endemismo

As canelas-de-ema pertencem à família Velloziaceae, que reúne cerca de 265 espécies na América do Sul.

Grande parte ocorre nos campos rupestres, ambientes caracterizados por afloramentos rochosos, solos pobres em nutrientes, forte sazonalidade climática e isolamento geográfico.

Cerca de 75% das espécies da família são endêmicas, ou seja, possuem distribuição restrita.

Isso significa que populações encontradas na Serra do Cipó podem não ocorrer em nenhuma outra região do planeta.

O alto endemismo aumenta a importância de estratégias específicas de conservação, porque alterações em uma área relativamente pequena podem comprometer populações inteiras.

Treze espécies foram acompanhadas durante dois anos

O estudo foi conduzido por pesquisadoras vinculadas ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima e ao Instituto de Biociências da Unesp, em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina.

As observações ocorreram no Parque Nacional da Serra do Cipó e na Reserva Vellozia, na porção sul da Serra do Espinhaço.

Entre as 13 espécies analisadas, três estavam classificadas como ameaçadas de extinção, uma como quase ameaçada e uma como de menor preocupação. Outras sete ainda não haviam sido avaliadas quanto ao estado de conservação.

Pesquisa acompanhou todo o ciclo reprodutivo

A metodologia combinou observações de campo, experimentos de polinização e testes de germinação.

Os pesquisadores visitavam as populações a cada duas semanas para registrar quando as plantas floresciam e a intensidade da floração.

Em seguida, flores ainda em botão foram separadas em diferentes tratamentos.

Algumas permaneceram abertas à visitação natural dos polinizadores.

Outras foram polinizadas manualmente pelos pesquisadores.

Um terceiro grupo foi isolado com pequenos sacos de organza para impedir o acesso dos animais.

Depois, os cientistas avaliaram a formação de frutos e sementes.

As sementes produzidas em cada tratamento também foram levadas ao laboratório para testes de germinação.

Essa última etapa permitiu verificar não apenas se uma flor produziu um fruto, mas se o processo realmente resultou em sementes capazes de originar novas plantas.

Pesquisadora do CBioClima/Unesp coleta Vellozia nos campos rupestres de Minas Gerais. (Crédito: CBioClima/Unesp)

Ter fruto não significa reprodução bem-sucedida

Esse acompanhamento revelou uma diferença importante.

Em algumas situações, as plantas conseguiam produzir frutos mesmo sem receber visitantes, mas as sementes apresentavam baixa qualidade ou não germinavam.

Por isso, utilizar apenas a presença de frutos como indicador de sucesso reprodutivo pode gerar uma interpretação incompleta.

Uma população só consegue se manter ao longo do tempo se produzir sementes viáveis e novos indivíduos.

Nesse aspecto, a participação dos polinizadores fez diferença.

Sete espécies não produziram frutos ou sementes sem polinizadores

Entre as 11 espécies submetidas aos experimentos reprodutivos, sete não conseguiram produzir frutos ou sementes quando os animais foram impedidos de acessar as flores.

Mesmo entre espécies com algum nível de autonomia reprodutiva, os melhores resultados ocorreram quando havia polinização realizada pelos animais.

Isso demonstra que a resistência fisiológica das canelas-de-ema às condições extremas dos campos rupestres não elimina sua dependência das interações ecológicas.

Uma planta pode tolerar seca, solos pobres e incêndios e, ainda assim, depender de uma ave ou de uma abelha para completar seu ciclo de vida.

Beija-flores e abelhas foram os principais visitantes

Os pesquisadores instalaram câmeras acionadas por movimento para registrar os animais que visitavam as flores.

Entre os principais polinizadores apareceram os beija-flores Colibri serrirostris e Chlorostilbon lucidus.

Também foram registradas abelhas do gênero Trigona, pertencentes ao grupo das abelhas sem ferrão, além da abelha-africanizada Apis mellifera.

As câmeras permitiram observar frequência de visitação, horários e quais espécies de plantas eram procuradas por cada grupo de animais.

Esses registros ajudam a compreender as redes de interação que mantêm os campos rupestres funcionando.

Algumas espécies florescem depois do fogo

O estudo também confirmou uma característica conhecida de diversas canelas-de-ema: a relação entre floração e fogo.

Espécies como Vellozia alata e Vellozia caruncularis apresentaram produção de flores poucas semanas após queimadas na região.

O Cerrado evoluiu sob a influência histórica do fogo, e diversas espécies desenvolveram adaptações a esse distúrbio.

No caso dessas plantas, a passagem do fogo pode funcionar como um estímulo para a floração.

Isso, porém, não significa que qualquer incêndio seja benéfico.

A frequência, intensidade, época do ano e extensão das queimadas influenciam profundamente seus efeitos sobre o ecossistema.

Floração também segue diferentes estratégias

A equipe observou mais de um padrão de floração.

Algumas espécies apresentaram episódios de floração massiva, com grande quantidade de flores produzida em um intervalo curto.

Outras adotaram uma estratégia mais prolongada, produzindo menor quantidade de flores durante os meses de transição entre as estações chuvosa e seca.

Essas diferenças podem influenciar a disponibilidade de alimento para polinizadores e a probabilidade de cruzamento entre indivíduos.

Também podem tornar determinadas espécies mais vulneráveis a alterações no clima.

Se mudanças na temperatura ou no regime de chuvas modificarem o período de floração sem alterar da mesma forma a atividade dos polinizadores, a sincronização entre plantas e animais pode ser prejudicada.

Campos rupestres não são áreas degradadas

Outro ponto levantado pelos pesquisadores é a aparência desses ambientes.

Campos rupestres possuem vegetação baixa, afloramentos de rocha e solos rasos e pobres.

Para quem desconhece sua ecologia, a paisagem pode parecer improdutiva ou degradada.

Na realidade, são ambientes naturais extremamente antigos e biologicamente diversos, com grande número de espécies que não existem em nenhum outro lugar.

Interpretar essas paisagens como terras sem valor pode facilitar sua conversão para pecuária, mineração ou outras atividades.

A perda de uma pequena área pode representar a eliminação de populações inteiras de espécies endêmicas.

Conservar as plantas também exige conservar seus polinizadores

Os resultados reforçam que estratégias de conservação não podem olhar apenas para uma espécie isolada.

Manter uma população de Vellozia depende também da manutenção de seus polinizadores.

Se populações de beija-flores ou abelhas diminuírem, a reprodução das plantas pode ser afetada mesmo que o habitat continue aparentemente preservado.

O inverso também é verdadeiro.

As flores das canelas-de-ema fornecem recursos para os animais, formando uma relação de dependência ecológica.

Conservar essas interações ajuda a manter o funcionamento do ecossistema como um todo.

Beija-flores e abelhas representam os principais polinizadores de flores da família Vellozia no cerrado brasileiro. (Crédito: CBioClima/Unesp)

Dados podem ajudar a avaliar espécies ainda pouco conhecidas

Sete das 13 espécies analisadas ainda não possuíam avaliação formal de risco de extinção.

Informações sobre distribuição, floração, dependência de polinizadores e sucesso reprodutivo podem contribuir para futuras avaliações.

Espécies com área de ocorrência muito restrita e alta dependência de determinados polinizadores podem apresentar vulnerabilidades diferentes de plantas capazes de se reproduzir de forma mais autônoma.

Por isso, conhecer a biologia reprodutiva é uma etapa importante para definir prioridades de conservação.

Resiliência não significa invulnerabilidade

As canelas-de-ema são exemplos de plantas altamente adaptadas.

Sobrevivem em solos pobres, enfrentam grandes variações ambientais e algumas conseguem florescer rapidamente após o fogo.

Mas o estudo mostra que essa resistência tem limites.

Para que uma população continue existindo, não basta sobreviver.

É necessário produzir frutos, formar sementes viáveis e gerar novos indivíduos.

E, para várias dessas espécies, esse processo depende diretamente de beija-flores e abelhas.

A pesquisa reforça um princípio central da conservação: proteger uma espécie também significa preservar as relações ecológicas das quais ela depende.

Em ambientes com alto endemismo, como os campos rupestres da Serra do Cipó, conservar polinizadores, vegetação e dinâmica ecológica é essencial para que espécies únicas continuem existindo nas próximas gerações.

O estudo foi publicado na revista Annals of Botany e contou com financiamento da FAPESP, além de apoio do Parque Nacional da Serra do Cipó e do ICMBio.

Fonte: Jornal da Unesp.

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