Estudo classifica 55 ecossistemas do Cerrado como ameaçados e aponta perda de vegetação nativa

Estudo classifica 55 ecossistemas do Cerrado como ameaçados e aponta perda de vegetação nativa

Quase 70% dos ecossistemas avaliados no Cerrado brasileiro estão ameaçados de colapso, segundo um estudo publicado em outubro de 2026 na revista científica Conservation Science and Practice. A pesquisa identificou 55 ecossistemas em categorias de ameaça entre os 80 analisados, em um bioma onde a cobertura de vegetação natural diminuiu 20% entre 1985 e 2020.

O estudo, assinado por Juliana Ávila Martins, do Imperial College London e da Sociedade Zoológica de Londres, e Robert J. Smith, da Universidade de Kent, aplicou a Lista Vermelha de Ecossistemas, uma metodologia internacional desenvolvida para avaliar o risco de colapso de ambientes naturais.

Dos 80 ecossistemas avaliados no Cerrado, 12 foram classificados como Em Perigo (Endangered) e 43 como Vulneráveis (Vulnerable), nenhum foi classificado como Criticamente Em Perigo. Totalizando 55 ecossistemas classificados em categorias de ameaça, o equivalente a aproximadamente 69% das unidades analisadas. Esse percentual se refere ao número de ecossistemas, e não à proporção da área total do bioma ameaçada.

O resultado também revela que os riscos não se limitam à quantidade de vegetação perdida, a distribuição geográfica naturalmente restrita de alguns ambientes também contribui para sua classificação, especialmente no caso das áreas úmidas.

Foto: Senado Federal

Vegetação natural perdeu um quinto de sua cobertura em 35 anos

Para avaliar as mudanças na distribuição dos ecossistemas, os pesquisadores utilizaram dados de sensoriamento remoto do MapBiomas referentes ao período de 1985 a 2020. O Cerrado foi dividido em 20 ecorregiões, cada uma subdividida em quatro tipos de ecossistemas: florestas, savanas, campos e áreas úmidas.

Em 1985, as savanas representavam aproximadamente 56% da cobertura natural do bioma, seguidas pelas florestas, com 26%; pelos campos, com 14%; e pelas áreas úmidas, com 4%. Ao longo dos 35 anos analisados, a cobertura total de vegetação natural diminuiu 20%. A redução proporcional foi de 21% nas florestas, 21% nos campos, 20% nas savanas e 10% nas áreas úmidas.

Embora as áreas úmidas tenham apresentado uma perda percentual menor, isso não significa que todos esses ambientes estejam fora de perigo, o estudo identificou ecossistemas ameaçados também nesse grupo, inclusive em razão de sua distribuição geográfica limitada. Os pesquisadores avaliaram a extensão dos ecossistemas em intervalos de cinco anos e utilizaram esses dados para estimar seu risco de colapso e a análise se concentrou na redução da distribuição geográfica e na restrição da área ocupada por cada ecossistema.

Riscos variam entre as regiões do Cerrado

A distribuição dos ecossistemas ameaçados não é uniforme pelo bioma. Segundo os resultados, os ecossistemas florestais, savânicos e campestres em categorias de ameaça se concentram principalmente nas porções central e sul do Cerrado, já os ecossistemas de áreas úmidas ameaçados aparecem sobretudo no norte.

Os pesquisadores identificaram ainda ecorregiões centrais com quatro tipos de ecossistemas ameaçados, entre elas Basalto, Complexo da Bodoquena, Costeiro, Depressão Cárstica do São Francisco, Paracatu, Paraná Guimarães e Vão do Paraná. As diferenças regionais mostram a importância de avaliar os ambientes separadamente.

Uma região pode apresentar ecossistemas com perdas expressivas de vegetação, enquanto outra pode abrigar ambientes ameaçados principalmente porque ocupam uma área geográfica reduzida, essa distinção é importante para definir prioridades de conservação: medidas voltadas apenas à perda total de vegetação podem não identificar todos os ecossistemas que enfrentam risco elevado.

Expansão agrícola pressiona o bioma

A conversão de habitats naturais para atividades agropecuárias é uma das principais pressões sobre o Cerrado. Os autores relacionam a perda de vegetação à expansão da produção agrícola e pecuária, à demanda por commodities como soja e carne bovina e a mudanças nas políticas de uso da terra. O artigo também discute como incentivos econômicos e investimentos em infraestrutura contribuíram para a expansão agrícola no Brasil central desde a década de 1980, com destaque para a região de Matopiba, que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Outro fator mencionado é o deslocamento de parte da expansão da soja em direção ao Cerrado após a adoção da Moratória da Soja na Amazônia, em 2006. Essa relação é fundamentada em estudos anteriores citados pelos autores, e não representa uma causalidade isoladamente demonstrada pela avaliação dos 80 ecossistemas.

A legislação ambiental também faz parte da discussão, os pesquisadores observam que o Código Florestal permite a conversão de vegetação nativa em propriedades privadas dentro de determinados limites, o que mantém áreas naturais sob pressão mesmo fora de regiões já desmatadas ilegalmente. O estudo não analisou individualmente cada mudança de uso da terra nem determinou a contribuição exata de cada atividade econômica para a perda de vegetação, seu objetivo foi medir a redução da distribuição dos ecossistemas e avaliar seu risco de colapso.

O que significa estar ameaçado de colapso?

A Lista Vermelha de Ecossistemas, desenvolvida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), avalia o risco de perda das características ecológicas de ambientes naturais. O colapso pode envolver a perda irreversível de biodiversidade, de funções ecológicas ou de serviços ecossistêmicos, além de alterações significativas na extensão ou nas condições ambientais.

No estudo sobre o Cerrado, os pesquisadores aplicaram critérios relacionados à redução da distribuição geográfica e à restrição espacial, para completar o período de 50 anos previsto em um dos critérios, combinaram os dados observados entre 1985 e 2020 com projeções até 2035.

Isso significa que a classificação baseada na redução da distribuição considera tanto as mudanças já observadas quanto uma estimativa para os 15 anos seguintes a 2020. A projeção não equivale a uma medição já realizada das condições do bioma em 2035.

Os autores também apontam limitações, não foi possível aplicar os critérios da metodologia que exigem dados sobre a degradação de processos abióticos e bióticos ou modelos preditivos de risco de colapso. Segundo o artigo, não havia dados adequados para realizar essas avaliações em todos os ecossistemas analisados.

Além disso, observam que o sensoriamento remoto pode ter dificuldade para detectar determinados impactos, como os efeitos do pastoreio sobre algumas formações de savana. Por isso, os resultados representam uma avaliação baseada nos critérios e dados disponíveis, e não uma análise completa de todos os processos de degradação possíveis.

Avaliação pode orientar a conservação

Os autores defendem que a Lista Vermelha de Ecossistemas seja utilizada para apoiar políticas de conservação e restauração, planejamento territorial e decisões sobre a expansão de áreas protegidas. A avaliação também pode ajudar a acompanhar mudanças futuras no estado dos ecossistemas e a identificar regiões prioritárias para intervenções.

A pesquisa destaca que a existência de áreas protegidas não garante, por si só, que todos os ecossistemas de uma região estejam fora de perigo. Alguns podem continuar ameaçados pela perda de vegetação em áreas não protegidas; outros podem ter distribuição tão restrita que precisam de medidas específicas.

Os resultados oferecem uma base para comparar o risco entre as diferentes ecorregiões do Cerrado e orientar ações de conservação de acordo com as características de cada ambiente.

Ao avaliar florestas, savanas, campos e áreas úmidas separadamente, o estudo amplia a compreensão sobre a diversidade de riscos dentro do bioma. A perda de vegetação é uma parte importante do problema, mas a distribuição geográfica e as características ecológicas de cada ambiente também precisam ser consideradas para estabelecer prioridades de proteção e restauração.

 

Fonte: Martins, J. Á.; Smith, R. J. (2026). Producing a Red List of Ecosystems for the Brazilian Cerrado. Conservation Science and Practice. DOI: 10.1111/csp2.70426.

Esta matéria foi produzida com base no estudo científico citado acima. As informações, os dados e as conclusões atribuídos à pesquisa foram retirados da publicação original, com tradução e contextualização jornalística.

 

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