Da floresta ao conforto sensorial: no Dia Mundial do Autismo, projeto une madeira e educação especial em Sinop-MT
A visita que mudou tudo
O Projeto Socioambiental Poltronas Sensoriais Adaptativas começou com uma venda de madeira que não aconteceu — pelo menos não da forma planejada. Quando o professor e pedagogo Valcir Cardoso, 55 anos e 28 de carreira na rede pública de Sinop, visitou a S3 Madeiras, o empresário João Pedro Bellincanta viu sobre a bancada do professor algo que não esperava: assentos artesanais, cuidadosamente projetados para crianças com autismo.
Idealizadores do projeto visitaram escolas em SINOP para entender as demandas dos estudantes (Foto: Arquivo)
"Tudo começou com uma visita técnica do professor à nossa empresa. O que era para ser apenas uma venda de madeira se tornou um projeto sócio/ambiental quando conheci o trabalho dele: uma poltrona sensorial voltada para o autismo. Percebi ali que nossa madeira poderia servir a um propósito muito maior." - Conta BellincantaA ideia por trás das poltronas tem base científica sólida. A Teoria da Integração Sensorial, desenvolvida pela neurocientista Anna Jean Ayres na década de 1950 e reconhecida hoje pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, demonstra que estímulos proprioceptivos controlados — pressão, contenção, movimento suave — ajudam crianças com autismo a reduzir a sobrecarga sensorial e permanecer engajadas em sala de aula. Valcir chegou a esse conhecimento pela prática, peça por peça, em um ateliê com máquinas industriais que montou ao longo dos anos.
Madeira rastreável, leveza calculada
A S3 Madeiras é certificada pelo FSC e contribui com o que seria descarte: resíduos do manejo florestal certificado que, por questões dimensionais, seguiriam para usos de baixo valor agregado. A espécie escolhida como matéria-prima principal é a Amescla (Trattinnickia burserifolia), nativa da Amazônia — madeira moveleira, de baixa densidade, que garante leveza às peças e facilidade de usinagem.
Protótipo da cadeira sensorial fabricada pelo professor Valcir Cardoso (Foto: Arquivo pessoal)
"O foco são espécies de características moveleiras e baixa densidade (madeiras moles), como a Amescla. Essa escolha garante leveza aos utensílios e facilidade no processo de usinagem e montagem das peças. Nossa contribuição vai além da doação. Queremos garantir a viabilidade do projeto fornecendo madeiras de alta qualidade, com rastreabilidade total e as especificações técnicas exatas.", explica Bellicanta.
Com 28 anos de carreira na educação, o Professor Valcir Cardoso desenvolveu o mobiliário adaptado para suprir lacunas estruturais que enfrentava no dia a dia escolar. Para ele, a poltrona é mais do que um móvel; é um instrumento de suporte corporal e sensorial.
"A cadeira tem várias utilidades desde alimentação, para estudar e vai além, serve como base para a criança sentir texturas diferentes, nesse caso madeira material sólido, onde o apoio corporal centra-se em seu organismo, onde a criança perceba que ela própria pode ser agente de sustentação de seu corpo e consequentemente explorar outras formas de apoio para seu corpo", explica o professor.
Professor Valcir Cardoso testa orgulhoso a sua criação (Foto: Acervo pessoal)Os destinos: educação especial e comunidades indígenas
A ideia do projeto é disponibilizar as poltronas para unidades de educação especial inclusiva da região e para comunidades indígenas do norte de Mato Grosso — populações que, cada uma à sua maneira, enfrentam desafios severos de acesso a serviços especializados e equipamentos terapêuticos adequados.A escolha de contemplar povos originários não é acidental. O projeto reconhece que as comunidades que habitam e guardam as florestas das quais provém a matéria-prima têm direito a uma contrapartida justa. É, em miniatura, um modelo de economia florestal que fecha o ciclo — da tora certificada ao conforto de uma criança na aprendizagem.
"A parceria é uma soma de valores que ainda é pouco compreendida na sociedade", reflete Valcir. Para o professor, o foco não é de escala institucional — é granular, centrado no aluno. "A maior meta é a acomodação e o conforto para o estudante. Valores, pequenos gestos."
O que o Dia Mundial do Autismo tem a ver com a floresta
Mato Grosso é o segundo maior produtor de madeira nativa da Amazônia Legal — 1,62 milhão de metros cúbicos comercializados em 2024. Sinop, polo madeireiro do norte do estado, é o epicentro desse setor. É também onde um pedagogo e um empresário decidiram que resíduo florestal pode virar equipamento terapêutico.O Brasil tem cerca de 59 mil professores de Atendimento Educacional Especializado para 140 mil escolas que precisariam deles. Nesse cenário, soluções criadas fora do Estado, com matéria-prima rastreável da floresta e destinadas tanto a crianças na cidade quanto a comunidades originárias no interior da Amazônia, merecem ser contadas.
Compromisso com o Futuro
A iniciativa reforça o potencial do setor florestal de Mato Grosso — que movimenta mais de R$ 3 bilhões anualmente — em liderar projetos de ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa). Ao unir a rastreabilidade da madeira com a pedagogia especializada, o projeto "Poltronas Sensoriais" mostra que a floresta sustentável oferece soluções que vão muito além da economia, tocando diretamente na qualidade de vida e na inclusão social.