Falas de Bolsonaro sobre Amazônia na ONU não condizem com realidade, dizem pesquisadores
Em seu discurso na 76ª Assembleia Geral da ONU em Nova York nesta terça (21/09), o presidente Jair Bolsonaro usou um tom para falar sobre as florestas brasileiras e o meio ambiente bastante diferente do que usa internamente e até mesmo do que teve em seu discurso do ano passado.
Alan SantosSobrevoos registram imagens dramáticas da Amazônia
Também na terça-feira (21/9) a Aliança Amazônia em Chamas, formada pelas organizações Amazon Watch, Greenpeace Brasil e Observatório do Clima, divulgou novas imagens com focos de fumaça nos municípios de Porto Velho (RO) e Lábrea (AM), após sobrevoo feito entre os dias 14 e 17 de setembro.
“Enquanto Bolsonaro chegava a Nova York, sobrevoávamos a Amazônia para registrar a realidade de destruição da maior floresta tropical do mundo: desmatamento e queimadas ilegais. As imagens não mentem. Não podemos dizer o mesmo do discurso do presidente na ONU”, afirma Stela Herschmann, especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima.
Já em seu discurso na ONU em 2021, o presidente elogiou a legislação ambiental brasileira e o Código Florestal; enalteceu a Amazônia e nossas reservas indígenas; falou sobre neutralidade climática e afirmou que o "futuro do emprego verde está no Brasil" com "energia renovável, agricultura sustentável e indústria de baixa emissão".
Também fez diversas afirmações inverídicas sobre a área ambiental: disse que o desmatamento caiu e que 84% da Amazônia está intacta.
Para pesquisadores ambientais e de ciência política, a distância entre o atual discurso e quase três anos de gestão com péssimos índices de preservação ambiental é tão grande que falas como a feita na ONU são totalmente inócuas.
"Não é um discurso de dez minutos que muda uma realidade devastada", diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima (entidade que reúne 43 organizações ambientalistas). "Ele fala que o Brasil tem uma legislação ambiental para proteger o ambiente, ele elogia a vegetação da Amazônia. Tudo isso é verdade, mas nada foi feito por ele. A legislação não foi feita pela base dele no Congresso, não foi ele que plantou a Amazônia. O problema não é o que o Brasil tem, é o que ele quer destruir."
"Bolsonaro faz propaganda justamente daquilo que ele está destruindo", afirma Astrini.
O cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral e fundador da consultoria política Dharma, com essa diferença em relação aos discursos anteriores, Bolsonaro tenta fazer acenos para investidores internacionais, pois percebeu as consequências negativas de um discurso agressivo em relação ao ambiente no cenário mundial. No entanto, seu discurso só atinge seus próprios seguidores.
"Ele faz uso extremo de eufemismos e usa informações que não tem relação nenhuma com a realidade. Quando ele tenta vender uma realidade que não existe, acaba falando apenas a um grupo pequeno de apoiadores", analisa Souza. "Ele fala para um grupo cada vez menor de pessoas."
Astrini diz que é impossível para Bolsonaro conseguir recuperar sua imagem internacionalmente no quesito ambiental.
"A única coisa que ele poderia dizer para mudar a imagem do Brasil é 'aqui está minha carta de renúncia'", afirma o pesquisador do Observatório do Clima
Mentiras na tribuna

BBC - O desmatamento aumentou substancialmente na floresta (Foto: Getty Images via BBC)
LEIA TAMBÉM: Bolsonaro diz que ‘obsessão’ de Biden pelo meio ambiente ‘atrapalha um pouquinho’ LEIA TAMBÉM: Governo quer convencer o mundo que problema do Brasil é ‘de imagem’Além disso, pelo menos outros 20% da floresta estão degradados, com presença da garimpo, grileiros e madeireiros ilegais, aponta o Observatório do Clima. "A gente só tem a outra metade da floresta preservada porque o Bolsonaro só tem um mandato. Se ele estivesse há 20 anos no poder, a gente não tinha mais nada da Amazônia", afirma Astrini. Bolsonaro também usou de dados distorcidos para afirmar que o desmatamento caiu, o que não é verdade. "Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior", disse ele. A comparação de um mês com outro do ano anterior não dá a dimensão correta. O desmatamento aumentou por dois anos consecutivos de governo Bolsonaro (2019 e 2020), e deve se manter alta em 2021, cujos dados só serão consolidados no fim do ano. Segundo o Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais), a média de desmatamento na Amazônia foi de 6.719 km² por mês nos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro e de 10.490 km² por mês nos dois primeiros anos de seu governo, um aumento de 56%. O próprio vice-presidente Hamilton Mourão já admitiu que o patamar deve se manter o mesmo em 2021. O presidente também enalteceu as reservas indígenas - nenhuma criada ou favorecida de alguma forma durante seu governo, que diminuiu a fiscalização sobre invasões e durante o qual o garimpo avançou como nunca para dentro da floresta. Bolsonaro disse na ONU que os "índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades", algo que contradiz totalmente a manifestação da grande maioria das entidades indígenas organizadas.

BBC - Governo Bolsonaro tem sido alvo de protestos por sua política ambiental (Foto: REUTERS via BBC)

BBC- Os direitos de povos indígenas estão no centro do debate no STF (Foto: Getty Images via BBC)
Assista o discurso na íntegra:
Fonte: UOL / Época / Um Sò Planeta / Metrópolis
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