Leste da Amazônia vira fonte de carbono e passa a emitir mais CO2 do que absorve
A Amazônia é tradicionalmente vista como um sumidouro de carbono, uma região que mais absorve do que emite para a atmosfera dióxido de carbono (CO2). Mas a maior floresta tropical do planeta dá sinais de que sua capacidade de retirar do ar o principal gás de efeito estufa está seriamente comprometida, em especial em sua porção oriental. Entre 2010 e 2018, o leste da Amazônia se comportou como uma nítida fonte de CO2 para a atmosfera, ou seja, mais emitiu do que absorveu esse gás, segundo um novo estudo coordenado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com a participação de colegas de outros institutos e universidades do Brasil e do exterior.
O avanço do desmatamento e o recrudescimento das queimadas, como a ocorrida em 2019 em Alter do Chão, no Pará (imagem), são fatores que diminuem a capacidade de a floresta tropical retirar dióxido de carbono da atmosfera
Esses cálculos e interpretações fazem parte de um estudo publicado na edição desta semana da revista Nature, que analisou a composição química do ar em diferentes regiões da Amazônia. O avanço das queimadas e do desmatamento na sua parte oriental são apontados pelos autores do artigo como as principais causas de essa região ter se tornado uma fonte de carbono. Com menos árvores em pé, a capacidade de retirar CO2 da atmosfera, via fotossíntese, diminui. Se, além de cortada, a vegetação é queimada, o carbono que estava armazenado na biomassa da planta retorna diretamente para o ar. Também as áreas degradadas da Amazônia, em que há mais mortalidade de árvores em razão de efeitos decorrentes das queimadas e das mudanças climáticas, contribuem para aumentar a coluna das emissões de carbono.
Veja: Estados da Amazônia Legal contra o desmatamento“Observamos que as áreas com desmatamento superior a 30% do seu total emitiram muito mais carbono do que as com uma taxa de desflorestamento inferior a 20%”, comenta a química Luciana Vanni Gatti, do Inpe, coordenadora do estudo financiado pela FAPESP. “Dados meteorológicos indicam que, nos últimos 40 anos, a parte leste foi o setor da Amazônia que sofreu o maior aumento médio de temperatura e a maior redução de chuvas durante a estação de seca na região, entre agosto e outubro.” Nessa porção da floresta, a temperatura média no período de estiagem subiu mais de 2 graus Celsius (˚C) e a incidência de chuvas diminuiu em pelo menos 25%. No oeste da Amazônia, também houve elevação da temperatura e diminuição das chuvas entre 1979 e 2018, mas a um ritmo menor, no máximo 1,7 ºC de aumento térmico e redução de 20% da pluviosidade média. Na Amazônia, um mês é considerado seco quando chove, em média, menos de 100 milímetros no período.
Projeto Variação interanual do balanço de gases de efeito estufa na bacia amazônica e seus controles em um mundo sob aquecimento e mudanças climáticas – Carbam: Estudo de longo termo do balanço do carbono da Amazônia (nº 16/02018-2); Modalidade Projeto Temático; Programa Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais; Pesquisadora responsável Luciana Gatti (Inpe); Investimento R$ 4.436.420,43.
Artigo científico GATTI, L. V. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature. 15 jul. 2021
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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