Livro mapeia 1.400 plantas que alimentam as abelhas nativas em São Paulo e ensina a plantá-las
Quem trabalha com restauração ecológica sabe que escolher espécies é uma das decisões mais importantes de um projeto. Agora, quem quer plantar pensando também nas abelhas ganhou uma referência de peso: chega às livrarias em 12 de novembro o livro “Plantas e sistemas agroflorestais melíferos no estado de São Paulo”, quinto volume da Série Sem Ferrão.
A obra reúne o levantamento mais completo já organizado sobre a flora que sustenta as abelhas paulistas: 1.400 espécies de plantas visitadas por 292 espécies de abelhas. E vai além do inventário: traz um guia ilustrado em aquarela e três modelos de agrofloresta prontos para sair do papel.
Por que isso importa
São Paulo perdeu mais de três quartos de sua vegetação nativa. Com a floresta, foram embora também as flores que alimentam as abelhas, e a conta chega à lavoura. Segundo dados do Biota Síntese citados pelos autores, o déficit de polinizadores no estado causou R$ 4,2 bilhões em perdas agrícolas em 2022.
Ou seja: saber quais plantas alimentam as abelhas deixou de ser curiosidade de botânico. Virou informação econômica.
O levantamento também traz um alerta. Das plantas registradas, 438 estão nas categorias mais severas de ameaça de extinção, e elas são visitadas por 68% de todas as abelhas listadas no estudo. Em outras palavras, a maior parte das abelhas de São Paulo depende, ao menos em parte, de plantas que estão desaparecendo.

Jataí (Tetragonisca angustula). Ilustração: Diego Cardoso Avelar
Como o livro foi feito
Os dados foram reunidos a partir de décadas de estudos científicos, catálogos de pólen e bases de dados institucionais. Os autores também fizeram pesquisa própria: analisaram o pólen presente em 50 amostras de mel colhidas em 20 meliponários de 16 municípios paulistas. Essa técnica, chamada melissopalinologia, revela de quais flores as abelhas realmente coletaram alimento. A análise foi conduzida no Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA).
Um guia ilustrado para quem planta
Da lista completa, o livro destaca 120 espécies nativas de maior interesse para a meliponicultura, a criação de abelhas sem ferrão. Sessenta delas ganharam fichas com aquarelas originais da ilustradora Ingryd Guimarães, e as abelhas foram ilustradas por Diego Cardoso Avelar.
Cada ficha traz o período de floração em São Paulo, os recursos que a planta oferece (néctar, pólen ou resina), os biomas e tipos de vegetação onde ocorre, o grau de ameaça e as abelhas associadas a ela. Alguns exemplos:

Ficha da pitanga (Eugenia uniflora) no guia ilustrado. Ilustração: Ingryd Guimarães
Três modelos de agrofloresta
A parte mais inovadora do livro está no capítulo final. A partir de todo o levantamento, os autores propõem três sistemas agroflorestais concretos, com seleção de espécies, croquis de plantio e orientações de manejo:
Restauração ecológica produtiva, para recuperar áreas degradadas gerando renda.
Sistema de mel e frutas, combinando meliponicultura e fruticultura.
Sistema integrado ao café, para cafeicultores que querem diversificar a produção.
A grande sacada é inverter a lógica. Em vez de tratar as abelhas como beneficiárias eventuais de um plantio, os arranjos partem das necessidades delas, combinadas às necessidades produtivas do agricultor.
A proposta tem um alvo claro: transformar a obrigação legal de restaurar Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal em oportunidade de renda. Para Jerônimo Villas-Bôas, um dos organizadores da obra, a conclusão é direta: “plantar para as abelhas é restaurar para todos”.
Urucum (Bixa orellana): conhecido pelo colorau, floresce de fevereiro a maio e oferece néctar e pólen. É visitado pela mandaçaia, pela jataí e pela Tetragona clavipes.

Urucum (Bixa orellana). Ilustração: Ingryd Guimarães
O que eu penso
Como engenheiro florestal que trabalha com restauração, considero esse livro uma ferramenta prática de primeira linha. Um dos maiores desafios de qualquer projeto de restauração é sair da lista genérica de espécies e pensar na função de cada planta na paisagem. Saber quando cada árvore floresce e quais polinizadores ela sustenta muda completamente a forma de planejar um plantio.
E não sou só eu que acho. O botânico Harri Lorenzi, referência obrigatória para qualquer engenheiro florestal no Brasil, assina o texto da quarta capa e recomenda a obra a quem planta, a quem cria abelhas e a quem se interessa pela flora.
Ficha técnica
Título: Plantas e sistemas agroflorestais melíferos no estado de São Paulo
Série: Sem Ferrão, volume 5
Organizadores: Jerônimo Kahn Villas-Bôas, Eduardo M. B. Prata, Ana Luiza Bovoy, Rafael Barreiro Chaves e Cynthia Fernandes Pinto da Luz
Editora: Reenvolver (2026)
Páginas: 316
Preço: R$ 180,00
Onde comprar: a partir de 12 de novembro, na Livraria Megafauna (https://www.livrariamegafauna.com.br/)
O livro é resultado do Projeto Verde Mel, parceria entre a Reenvolver, a Sylvamo e a Associação Ambientalista Copaíba.
E você, já pensou em plantar para as abelhas? Tem alguma dessas espécies no seu quintal ou na sua propriedade? Conte nos comentários!
Saudações florestais!
Arthur Brasil, Engenheiro Florestal
Fonte: release da Reenvolver. Ilustrações botânicas: Ingryd Guimarães. Ilustrações das abelhas: Diego Cardoso Avelar.
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