"A água é a vida": Moisés Piyãko, xamã Ashaninka, lança recado sobre as águas da fronteira amazônica
Nesta quarta-feira, 21 de outubro, às 18h (horário de Brasília), a Associação Selvagem lança "Águas transfronteiriças", novo Recado Selvagem de Moisés Piyãko, xamã e uma das lideranças mais respeitadas do povo Ashaninka. Gravado às margens do Rio Amônia, no Acre, o vídeo traz uma mensagem de amor às águas e uma denúncia direta contra o que vem ameaçando rios e nascentes na fronteira entre o Brasil e o Peru: o desmatamento, o extrativismo ilegal e o avanço do crime organizado.
Assista à estreia
O Recado estreia no YouTube nesta quarta-feira (21), às 18h. Ative o lembrete e assista ao vivo:
? https://youtu.be/fQuD8yGRDSw
Quem é Moisés Piyãko
Moisés vive na aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, extremo oeste do Acre. A aldeia reúne cerca de 800 pessoas do povo Ashaninka.
Ele e os irmãos Francisco, Benki e Wewito Piyãko são reconhecidos internacionalmente pelo trabalho de regeneração e proteção da floresta e dos povos amazônicos. Desde a demarcação da terra indígena, em 1992, a comunidade de Apiwtxa recuperou áreas degradadas, protegeu nascentes e se tornou referência em gestão territorial indígena. Esse trabalho rendeu prêmios como o Prêmio Equatorial das Nações Unidas, em 2017, e o Prêmio Newton, em 2018.
A Terra como um corpo
No recado, Moisés parte da experiência local para falar do planeta como um todo. Ele alerta para os danos que guerras e produtos químicos causam em toda a Terra e propõe olhar para o planeta como um corpo vivo, em que tudo está conectado. A chuva, por exemplo, não é um fenômeno isolado: ela depende das plantas e de todo o sistema de vida que os Ashaninka entendem como uma herança deixada por Pawa, a divindade criadora.
"Não tem outro lugar. A chuva que a gente vê é um giro que ela faz através das plantas e de todo esse sistema que Pawa deixou para nós. Então, ele deixou esse sistema todinho para a gente cuidar."
A fala de Moisés conversa diretamente com o que a ciência tem mostrado nas últimas décadas. A Amazônia funciona como uma enorme bomba de umidade: as árvores devolvem à atmosfera a água que retiram do solo, formando os chamados rios voadores, que levam chuva para outras regiões do continente. Quando a floresta cai, esse ciclo se rompe. O saber tradicional e o conhecimento científico chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes.
Uma fronteira que precisa de proteção
O recado também é inspirado na atuação de Moisés na Comissão Transfronteiriça Juruá-Yurúa-Alto Tamaya, articulação que defende a sociobiodiversidade da região dos rios Juruá, no Acre, e Yurúa e Alto Tamaya, no departamento de Ucayali, no Peru.
Essa é uma região sensível. Rios e florestas não respeitam linhas traçadas em mapas, e a degradação de um lado da fronteira afeta diretamente o outro. Nos últimos anos, as áreas de fronteira na Amazônia têm sofrido com a pressão da exploração ilegal de madeira, do garimpo e de redes criminosas, que encontram ali menos fiscalização e mais rotas de escoamento. Quando nascentes são invadidas, quem mora rio abaixo sente as consequências.
A mensagem de Moisés é clara: proteger as águas é uma responsabilidade coletiva, e um futuro com rios vivos só é possível com povos vivos.
O Ciclo das Águas
"Águas transfronteiriças" faz parte do Ciclo das Águas, ciclo de estudos publicado pela Associação Selvagem em 2026, que reúne nomes como Ailton Krenak, Mateus Aleluia, Renata Tupinambá e a antropóloga francesa Nastassja Martin.
Os Recados Selvagem são mensagens audiovisuais curtas e pessoais, em que cada convidado compartilha reflexões a partir da sua experiência e da sua relação com a vida. Todo o material é gratuito e fica disponível no site e no canal da Selvagem no YouTube.
A Associação Selvagem atua desde 2018 registrando e apoiando saberes indígenas, criando pontes entre ciência e arte. Seus recursos são direcionados às Escolas Vivas, centros indígenas de transmissão de conhecimentos tradicionais, com repasse financeiro direto a cada escola.
Por que vale assistir
Como engenheiro florestal que trabalha com restauração ecológica, vejo na trajetória de Apiwtxa uma das provas mais concretas de que recuperar território é possível quando quem vive nele está no centro das decisões. Os povos indígenas não são apenas guardiões da floresta: são detentores de um conhecimento sobre como ela funciona que a ciência ainda está aprendendo a reconhecer.
Ouvir lideranças como Moisés Piyãko não é um gesto simbólico. É uma forma de entender, por outra lente, o que está em jogo quando falamos de água, floresta e clima.
E você, já conhecia o trabalho dos Ashaninka de Apiwtxa? Conte nos comentários e não perca a estreia amanhã, às 18h!
Saudações florestais!
Arthur Brasil, Engenheiro Florestal
Fonte: release da Associação Selvagem. Assista a "Águas transfronteiriças" no YouTube: https://youtu.be/fQuD8yGRDSw
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