Nova espécie do Cerrado recebe o nome de Marina Silva e já nasce ameaçada de extinção
O Cerrado acaba de ganhar uma nova espécie de planta conhecida pela ciência. E ela chega com uma homenagem e um alerta. Publicada em 21 de outubro na revista científica Nordic Journal of Botany, a Chamaecrista marinasilvae recebeu seu nome em homenagem à ambientalista Marina Silva. Mas, mal foi descrita, já foi classificada como em perigo de extinção.

Flor de Chamaecrista marinasilvae. No detalhe, o fruto coberto de pelos. Foto: Marcelo F. Simon
Uma planta escondida nos herbários
A espécie foi encontrada durante um levantamento da flora da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, na região do Jalapão. Em junho de 2021, os pesquisadores coletaram, no município de Mateiros, um exemplar de Chamaecrista que não se encaixava em nenhuma espécie conhecida.
Ao procurar nos herbários, veio a surpresa: outras coletas da mesma planta já existiam, algumas feitas décadas atrás. Elas estavam identificadas como Chamaecrista juruenensis, uma espécie parecida e mais comum no Cerrado. Em uma revisão publicada em 2022, as diferenças das plantas do Jalapão foram atribuídas aos solos arenosos da região.
Ao reexaminar todo esse material, a equipe concluiu que as diferenças eram consistentes demais para serem só efeito do ambiente. A nova espécie se distingue pela cor e pelos pelos dos ramos, pelo tamanho das estruturas na base das folhas, pelas nervuras mais numerosas e visíveis e pelos pelos longos no ovário e no fruto.
Há até uma pista histórica. Em um exemplar coletado em 1993 e guardado no herbário de Kew, na Inglaterra, o botânico Rupert Barneby, um dos maiores especialistas no grupo, anotou que a planta parecia diferente das espécies conhecidas. Mais de 30 anos depois, a suspeita foi confirmada.
A pesquisa foi feita pela bióloga Késia Ramos Miranda, em seu mestrado na Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), com Raiana Rocha de Souza (UnB), Marcelo Fragomeni Simon (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) e Juliana Gastaldello Rando (UFOB, UEFS e Jardim Botânico de Kew).
Como é a espécie
A Chamaecrista marinasilvae é um arbusto delgado ou arvoreta de 1,5 a 3 metros, da família das leguminosas, a mesma do feijão e do pau-brasil. Seus ramos são avermelhados ou esbranquiçados, cobertos por pelos dourados que chegam a 5 milímetros, muitos deles glandulares e pegajosos.
As folhas têm dois pares de folíolos arredondados, e as flores são amarelas, reunidas em cachos. A planta floresce em junho e julho, e os frutos amadurecem em setembro. Ela cresce em campo sujo e perto de afloramentos rochosos, em solos arenosos e pedregosos, entre 500 e 670 metros de altitude.

Chamaecrista marinasilvae em seu ambiente, no Jalapão (TO). Foto: Marcelo F. Simon

Ilustração científica da nova espécie, com detalhes da flor, do fruto, das folhas e dos pelos. Ilustração: Najla Scheidegger
Por que ela já nasce ameaçada
A espécie é conhecida por apenas sete coletas, todas no Tocantins, nos municípios de Mateiros, Ponte Alta do Tocantins e Ponte Alta do Bom Jesus. Uma delas foi feita na divisa com a Bahia, então talvez ela também ocorra no oeste baiano.
O problema é onde ela vive. O Jalapão fica colado ao Matopiba, a fronteira agrícola que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas citado no estudo, em 2024 essa região respondeu por cerca de 42% de toda a perda de vegetação nativa do Brasil, ou 516 mil hectares, e por 75% do desmatamento do Cerrado.

Pontos de ocorrência da espécie (amarelo) e desmatamento acumulado até 2025 (vermelho). Em verde, a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins. Mapa: Miranda et al. (2026), Nordic Journal of Botany
O mapa do estudo fala por si: os pontos onde a planta foi encontrada estão cercados por áreas desmatadas. Além da expansão da agricultura mecanizada, a espécie enfrenta o turismo crescente e o fogo. Hoje, a única proteção legal da área onde ela vive é a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins. Por isso, os autores a classificaram como “Em Perigo” (EN) pelos critérios da IUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza.
A homenagem a Marina Silva
Os autores explicam que o nome homenageia Marina Silva, historiadora, ambientalista, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, pela sua trajetória na proteção ambiental. Eles destacam que o fato de a espécie estar hoje dentro de uma unidade de conservação é resultado de decisões tomadas no passado para proteger a região.
Em suas redes sociais, Marina Silva contou que esta é a terceira espécie batizada em sua homenagem e agradeceu à equipe de pesquisa. Ela também lembrou que a descoberta mostra o quanto ainda falta conhecer da biodiversidade brasileira, e que “conhecer é parte essencial do cuidado”.

Ramo com folhas e botões de Chamaecrista marinasilvae. Foto: Marcelo F. Simon
O Cerrado ainda guarda segredos
A Chamaecrista marinasilvae não é um caso isolado. O gênero Chamaecrista tem cerca de 360 espécies no mundo, 270 delas no Brasil, e o Cerrado é seu principal centro de diversidade, com 175 espécies que só existem ali. Na última década, várias novas espécies do gênero foram descritas no bioma, e só no Tocantins já são 47 espécies registradas.
Ou seja: o Cerrado ainda está sendo descoberto. E está sendo desmatado ao mesmo tempo.
O que eu penso
Como engenheiro florestal que trabalha com restauração ecológica, essa descoberta me faz pensar em uma corrida contra o tempo. Quantas espécies do Cerrado vão desaparecer antes mesmo de ganhar um nome? A ciência já tem até um termo para essa disputa: descrição contra desmatamento.
Também é um lembrete do valor dos herbários e dos taxonomistas. Essa espécie estava guardada em coleções havia mais de 30 anos, esperando que alguém olhasse com atenção. Sem esses acervos e sem gente formada para estudá-los, ela continuaria invisível.
E é mais uma prova de que unidades de conservação funcionam. Sem a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, a Chamaecrista marinasilvae talvez já estivesse sob um campo de soja. Proteger o que resta do Cerrado no Matopiba não é só uma questão de números: é a diferença entre conhecer uma espécie e perdê-la sem nunca saber que ela existiu.
E você, já visitou o Jalapão? Conhecia a riqueza de plantas do Cerrado? Conte nos comentários!
Saudações florestais!
Arthur Brasil, Engenheiro Florestal
Fonte: Miranda, K. R.; Souza, R. R.; Simon, M. F.; Rando, J. G. Chamaecrista marinasilvae sp. nov. (Leguminosae, Caesalpinioideae): a threatened new species from the deforestation frontier of the Brazilian Cerrado. Nordic Journal of Botany, e05326, 2026. DOI: 10.1002/njb.05326. Artigo de acesso aberto (licença CC BY). Fotos: Marcelo F. Simon. Ilustração: Najla Scheidegger.
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